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Por que certa violência importa tanto à literatura brasileira contemporânea?

Outubro 26, 2009

por Thiago Mattar

IV Encontro de Comunicação e Letras

IV Encontro de Comunicação e Letras/Linguagens em Interface

O escritor Ricardo Lísias, embora jovem, possui vários livros publicados. Nasceu em São Paulo em 1975, sua estréia se deu com o romance cobertor de estrelas de 1999 que foi lançado também na Espanha. Em 2005 escreveu 2 livros infanto-juvenis, publicados pela Editora Edra. Com o romance 2 praças editado pela Globo recebeu prêmios. É colaborador do Estado de São Paulo em resenhas e críticas de obras literárias. Já está nas livrarias seu novo romance, O Livro dos Mandarins.

O palestrante discorreu sobre a violência explicitada na literatura brasileira a partir de 1980, período de transição da ditadura, quando o país volta a se organizar, se tornando mais democrático. O primeiro movimento literário que ocorre naquele período foi o mesmo ocorrido nos países latino-americanos que enfrentaram a ditadura, a publicação de memórias. Lísias em sua fala analisa a obra O que é isso companheiro? de Fernando Gabeira, defende sua tese de que, nesse período, o Estado violentava o individuo, essa é a violência que se colocava nesse período, o Estado como agente dos males e dos problemas sociais.

A palestra configurou-se como uma grande aula de história brasileira, dos aspectos que abrangem a política e a cultura. Um panorama geral da cena literária brasileira do período de 1980 aos dias de hoje. Para Ricardo, essa literatura memorialística foi a grande fundadora dessa estética de violência na literatura contemporânea brasileira, assim como ocorreu na Argentina e diversos países latino-americanos que passaram por um período de ditadura. Rubem Fonseca, considerado um péssimo escritor por Ricardo, funda uma tradição brasileira da violência comezinha, a violência do ladrão de rua, da pessoa com a pessoa, não a pessoa com o Estado. Ele inaugura a violência das classes baixas, a invasão das classes altas por ela. Um livro exemplar é O Invasor (posteriormente adaptado para o cinema), um maluco da classe baixa que invade e começa a chantagear a classe alta. Os conflitos na cidade do Rio de Janeiro agora funcionam como plano de fundo para as modernas obras da “literatura violenta”.

Com o fim da ditadura, a classe média se torna agente de seus próprios desejos, e daí surgem as abordagens violentas dessa nova configuração. Uma obra de destaque é a já clássica obra de Ferréz, Capão Pecado. Ainda para Ricardo, a primeira vez que surge um meio literário sólido é após a inflação, nos anos de 1990, as editoras crescem, são criados prêmios literários e festivais. Dessa nova geração de 1990 há a emergência de contistas da violência urbana. O tempo da palestra se configurou como escasso para tantas questões importantes.

A literatura marginal existe desde 1970, naquela época era sinônimo de geração mimeógrafo, que rodava seus próprios livros, fora do pequenino mainstream literário da época (Ana Cristina César, Paulo Leminski, Chacal e outros). Hoje, as obras que representam esse espírito marginal possuem a diferença de serem publicados em grandes editoras. Ferréz aparece na capa da Folha Ilustrada, agrada a classe média entrando no mainstream, a literatura marginal torna-se uma estética que não discute os problemas sociais, um meio de pouco debate; os temas da violência são explorados, mas grandes posturas ideológicas não são defendidas. Uma literatura que se afina à classe consumidora de literatura, uma literatura conservadora que pretende agradar a classe média. Há uma tentativa de viver em um mundo pacífico em que a culpa de tudo está nas mãos das pessoas que vão nos assaltar (um caminho diferente do que a literatura argentina, uruguaia e chilena percorreu). Esse é o grande panorama que foi defendido por Lísias em sua palestra ministrada hoje.

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