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Entrevista exclusiva com Victor Ferreira

Outubro 31, 2009

Victor Ferreira, 20 anos, cursa o 6° semestre de Jornalismo no Mackenzie. Dois dias no Haiti renderam a ele a reportagem de capa da revista Brasileiros de agosto.

J.J. – Como surgiu a oportunidade de ir ao Haiti?

Victor Então, eu participei de um projeto, na Oboré, chamado “Projeto Repórter do Futuro” e através daquele projeto eu fui para a Amazônia duas vezes. A primeira eu fui como estudante do projeto e a segunda eu fui pela TV Mackenzie, que eu apresentava um programa lá e fui fazer uma matéria sobre a Amazônia. Conheci o pessoal do Centro de Comunicação Social do Exército e fiz contato com o pessoal de lá e comecei a falar que eu queria ir para o Haiti, que a gente queria fazer uma matéria no Haiti para a TV e tudo mais.

Na época não rolou, e isso foi no final de 2008, quando em ainda estava na TV Mackenzie. Passei o semestre inteiro, segundo semestre pedindo, não rolou, mas eles ficaram com meu contato lá, e vários pedidos que eu mandei por e-mail, carta, fax…

Esse ano, em junho, mais ou menos finalzinho de junho começo de julho, o Centro de Comunicação Social do Exército me ligou falando que tinha rolado a viagem, que ia rolar em julho. Só que eu já não estava mais na TV Mackenzie, tava trabalhando na Revista Época São Paulo e aí eu pedi uma folga lá e falei “Pô, eu quero ir!”. A Época não poderia publicar essa matéria, porque um repórter da Época já estava indo para lá em agosto (já foi né, mas na época ainda não tinha ido) e resolvi ir por minha conta mesmo, gastei até uma grana, porque o voo saia do Rio, a gente teve uma noite em Manaus e tal, e na volta foi que eu tentei publicar. Mas a viagem rolou assim!

J.J. – Como você conseguiu parar na capa da Brasileiros e ter doze páginas dedicadas à sua reportagem?

Brasileiros 3000001Victor Essa história é engraçada também, porque quando eu voltei com tudo o que eu tinha, eu já voltei pensando na Brasileiros, já era assinante, já lia a revista, mas não conhecia ninguém lá, absolutamente. Só que tem um amigo meu que trabalhou com o Hélio Campos Mello, que é diretor de redação da Brasileiros, conhece ele e tudo mais. Quando eu voltei, eu contei toda a história para ele e falei “Putz, eu queria que você me apresentasse para o Hélio”. Aí ele mandou um e-mail para o Hélio e falou “Oh Hélio, tem esse cara, foi para o Haiti tal, tem isso, isso e isso, interessa?”, aí ele respondeu, dizendo que interessava pedindo para eu ir lá conversar e tal. Fui, bati uma papo com a Cândida, Cândida Del Tedesco que é coordenadora editorial da Brasileiros e a princípio ia ser uma matéria de seis páginas, ela nem sabia se entraria nessa edição de agosto, que foi na qual entrou, porque a edição já estava fechada. Aí ela falou “Oh, vai fazendo alguma coisa, mas na segunda (isso era numa quinta ou sexta), na segunda eu te ligo pra saber se o Hélio vai querer para essa edição e vai tirar alguma coisa ou se ele vai querer para a próxima edição e aí você escreve com mais calma”. Aí, na segunda ela me ligou “O Hélio vai querer, ele derrubou uma matéria, aí vai entrar a sua com seis páginas ok”. Falei “Seis páginas… tudo bem, vamos fazer”.

Fiz o texto, mandei para ela, ela me falou “Tem como você escrever mais?”, aí eu falei “Escrevo mais”. Escrevi mais, mais, fiz um box, aí surgiu um outro assunto, fiz outro box. Aí falei “Pô, mais isso não vai caber em seis páginas”, ela: “Não se preocupa, manda aí, manda aí!”. Aí ela me mandou o PDF da matéria já pronta, o layout já tava pronto e tal, para eu legendar as fotos, foi aí que eu vi que tinha doze páginas, eu não sabia! Aí, porra, doze páginas, legal, gostei! Aí devolvi com as legendas, eles estavam fechando e tal, de repente eu recebo um e-mail da Cândida ,eu acho que uns dois dias da revista ir para a banca, falando que a matéria ia ser capa. E a matéria que seria capa era uma entrevista exclusiva com o José Alencar, o vice-presidente. Não sei por que não foi e até é uma matéria assinada pelo próprio Hélio Campos Mello, que é o diretor de redação, Ricardo Kotscho e Nirlando Beirão – que são três jornalistas com anos de experiência, mas acabou não sendo capa, houve um imprevisto, e foi a matéria do Haiti para a capa. E eu fiquei feliz, gostei!

J.J. – Quais foram as consequências de ter sua reportagem publicada na Brasileiros?

Victor Ah, eu acho que veio um pouco do reconhecimento. Tem até na própria Época, onde eu estou agora, tem uma repórter da Época que fez uma matéria sobre outro tema aqui [na Revista Brasileiros], e ela chegou com a revista lá, depois que ela se tocou que o Victor Ferreira da matéria do Haiti era eu.

Acho que veio um pouco do reconhecimento, mas acho que, principalmente para mim, é a empolgação em continuar a fazer coisas legais e diferentes assim. Não pode pensar: “Ah, já fiz a matéria da vida”. Não, não é a matéria da vida. Foi uma matéria importante, mas é só o começo também.

Para mim valeu a pena, a revista recebeu uma ou outra carta, eu recebi e-mail de gente que leu e gostou. Quando saiu a repercussão foi bem maior, hoje até, menor um pouco. E essa história de dar palestra aí, falar, conversar com as pessoas.

J.J. – Você estagiou na TV Mackenzie, no que isso influenciou sua carreira?

Victor A TV Mackenzie, para mim, acho que foi, não vou dizer que foi o começo de tudo porque antes eu fazia outras coisas em Minas e tal. Mas a TV Mackenzie ajudou muito porque: é um lugar pequeno, a programação é pequena, a equipe é enxuta e por isso você tem a oportunidade de fazer de tudo e fazer bem feito porque as pessoas são exigentes e os profissionais que trabalham lá – câmeras, os editores, o editor de texto – são extremamente profissionais e exigentes, e aí você acaba sendo um pouco exigente consigo mesmo. Para mim foi muito bom.

Eu apresentei um programa lá, chamado Revista Eletrônica, fiz algumas matérias. Tem uma matéria sobre Heliópolis, sobre a Sinfônica de Heliópolis, que ganhou um prêmio em Gramado, agora em dezembro, foi o melhor vídeo na categoria de vídeo social. Foi uma matéria que eu fiz á em Heliópolis, a gente foi para lá.

O trabalho lá é muito legal, porque trabalhar em TV, estagiar, sobretudo, em TV Globo e Record, você acaba ficando na escuta, você não tem a oportunidade de fazer reportagem mesmo. Na TV Mackenzie a gente tinha e os estagiários que estão lá agora também têm, isso sempre tem. É que depois eu saí e fui para a Editora Globo e fui tentar abrir novos caminhos aí, mas para mim a TV Mackenzie foi essencial e eu indico para todo mundo que pensa em fazer TV; comece por lá que vale a pena. Tenta ir lá, vê se tem vaga, conversa com as pessoas que vale muito a pena.

J.J. – Como você imagina seu futuro daqui para frente?

Victor Ah, não sei. Eu pretendo ficar na Editora Globo, depois que eu terminar a faculdade, e não sei aonde eu vou estar daqui a 5, 10 ou 20 anos, mas eu pretendo estar fazendo essas mesmas coisas, que possam ter alguma relevância para mudar algumas realidades. Eu sei que a gente também não vai mudar o mundo sozinho, mas você pode tentar fazer a sua parte, tentar mostra algumas coisas que se não tivessem espaço na mídia, não teriam espaço em lugar nenhum. Essa matéria do Haiti, por exemplo: difícil a gente ver matéria grande sobre essa história toda. É lógico que tem aquela cobertura cotidiana sobre o que está acontecendo lá, mas é uma cobertura muito política, não chega a ser uma cobertura mais humana. Não que essa tenha sido um exemplo de matéria internacional, até na palestra eu falei dos defeitos dela. Fiquei muito pouco tempo, acho que para ser uma matéria legal teria que ter ficado mais. Ouvi pouca fonte oficial, o que também não acho que seja um demérito, não é orgulho nenhum ouvir só fonte oficial, pelo contrário, acho que você tem que buscar mais personagem do que fonte oficial. Mas eu me imagino fazendo reportagem sempre, não me vejo como diretor, redator, nada, nada assim…

J.J. – Repórter internacional?

Victor Não tenho vontade de morar fora do Brasil. Tenho, claro, quero ficar um tempo fora, um ano, dois talvez, mas não é meu sonho fazer carreira fora do Brasil. É lógico que é sempre legal você viajar, como um enviado especial, mas não morar fora como correspondente… Eu gosto do Brasil, acho legal morar aqui. Não pretendo morar fora não!

J.J. – Você está trabalhando em algum projeto pessoal no momento?

Victor Estou. Eu e mais três amigos aqui do Mackenzie, a gente está bolando uma viagem maluca aí. Em janeiro a gente deve… porque vai estar todo mundo de férias, eu vou tirar férias também, 30 dias. A gente deve subir de carro até o sertão nordestino, descer pela região do Araguaia ali e então a gente vai passar pelo Rio São Francisco, onde está tendo as obras de transposição, algumas cidades-chave e outras cidades pequenas. Tem todo o mapa, a gente vai rodar aí uns dez mil quilômetros. Depois descer pela região do Araguaia, ir até Brasília, de Brasília voltar para São Paulo. Essa eu acho que seria a viagem da vida. A gente quer muito fazer, então deve rolar um blog aí. Na verdade a gente ainda está negociando, mas deve rolar um blog no site de alguma revista e uma matéria depois, não sei…

J.J. – Sobre o IV Encontro de Comunicação e Letras, como foi sair da posição de aluno e ocupar a posição de palestrante?

Victor É engraçado, a minha boca secou falando, achava que não ficava, ficou. Tive que roubar uma água lá do professor. E eu achei que ia ser muito pior na verdade. Eu fiquei com medo de todo mundo assinar a lista e sair, essas coisas – depois que passa a gente pode confessar. De todo mundo assinar a lista e sair e ficarem ali três pessoas. Não que essas três pessoas não fossem fazer jus ao que eu tinha para falar. Ou de gaguejar e ficar com vergonha. Mas eu acho que foi tranqüilo, foi mais um bate-papo. Na hora você acaba abstraindo, até porque eu não acho que seja essa coisa vertical de “ái, o palestrante, os alunos”, não, é um bate-papo. E ás vezes, por mais experiente que o palestrante seja (…) dá um debate de igual para igual. Tem aluno que está lá assistindo a palestra e que tem coisas a falar também, como teve nessa palestra. Acho que é enriquecedor para os dois lados: para mim, e para quem estava lá. Mais eu fique feliz que tinha bastante gente, pouca gente saiu no meio, mesmo depois de assinar a lista. Foi legal!

J.J. – Você tem alguma dica para os leitores?

Victor Eu vi uma frase, eu acho que a sua irmã que fez no blog, eu achei até engraçado: “que não se limita ao campus da universidade”. Eu acho que é isso, eu acho que jornalismo não vai ser feito de dentro da sala de aula, ninguém vai conseguir ser jornalista de dentro da sala de aula.

É lógico que a faculdade tem seus méritos, é importante, independente dessa discussão do diploma ser obrigatório ou não, eu acho que o espaço acadêmico é importante para a gente debater sobre o que a gente faz. É muito difícil no dia a dia da redação. (…) E eu acho que a universidade é o espaço para você debater sobre a prática da profissão. Então assim: como abordar, como se preparar para uma matéria e tal.

Ás vezes na redação você está meio aos trancos e barrancos ali e é que nem dirigi, na redação acontece muito como é: automático. Ninguém entra no carro e fica: “Piso na embreagem, engato a marcha, tiro o pé devagar, solto o freio de mão…”. Você entra e já sai andando. E quando você está na redação acontece um pouco isso: você entra e já sai fazendo e não pensa um pouco sobre o que você está fazendo. Eu acho que a universidade é a auto-escola, é o momento de você refletir sobre o que você vai fazer e pensar sobre isso para não fazer cagada depois. Tem muita gente que faz muita merda aí e não é porque não tem diploma. Esse debate como está hoje, eu sou contra. Não é o diploma ou não, mas eu acho que o momento de reflexão sobre o exercício da profissão é importante hoje e ele só é feito na universidade; exceto em alguns congressos. O congresso da Abraji [Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo] é muito importante, que é congresso de jornalista mesmo. A gente tem outros eventos que vão muitos acadêmicos. Não deixam de ser jornalistas, claro, mas é muita gente da academia e pouca gente das redações. Agora o da Abraji vai bastante gente das redações e eu acho que é um bom momento também para refletir sobre o que está se fazendo na imprensa em geral.

A minha dica é essa: é sair da universidade. E ir para o bar também, lógico. Tem que beber, tem que conversar. Aliás, as melhores conversas acontecem nesse âmbito, ás vezes, mas também tem que encarar uma penada aí. Ao invés de ir jogar bola no fim de semana, ou ir fazer um churrasco, pegar um buzão e ir para Brasilândia, ir para a Ilha do Bororé, sei lá… para os rincões aí. E é claro que para você fazer uma viagem para o Haiti você precisa ter uma infraestrutura diferente. Agora, para você ir para Mauá, para você ir para o ABC, para você ir para Diadema ou para a Brasilândia você não precisa falar com ninguém, toma o ônibus e vai, e põe no seu blog. E de repente lá você vai descobrir uma história muito legal e que pode virar matéria para a Brasileiros, por exemplo. Mas antes você tem que ir, ninguém vai te mandar. É aquela história de ser chefe de si mesmo.

A minha dica é essa. O Projeto Repórter do Futuro é muito importante. Tem gente que não gosta porque é sábado de manhã, “puta, eu vou comprometer quatro sábados seguidos aí de manhã, tem que acordar cedo”… Mas vale a pena, vale muito a pena. Aprendi muito lá, muito mesmo. É isso: congresso da Abraji, acho que ler e ter contato com quem trabalha nesse meio. Não ter vergonha de passar a mão no telefone e ligar, mandar um e-mail, falar com as pessoas. Jornalista é jornalista. É uma pessoa como qualquer outra, o cara não vai “ah, eu tenho medo de falar com fulano”, quê isso. Todo mundo atende a gente normalmente. Sempre vai ter gente chata, mas sempre vai ter gente legal também.

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